História de Viagem - Na Terra dos Leprechauns... Nas Irlandas

Eis uma prova de como viajar pode ser
uma das aulas mais completas da vida da gente!


Irlanda - Cidade de Galway.  Foto: Levis Litz

A CHEGADA


Vento, muito vento e frio – e que frio! Foi assim que aterrissei em Dublin, Irlanda. Céu cinzento, nuvens mais ainda e a vontade de voltar para uma cama bem quentinha. Mas, num ânimo que surgiu da sede de aventura, levantei-me do assento, peguei minha mochila e saí da aeronave. Vindo da terra dos Anglos (Inglaterra), cheguei na terra da deusa Ériu (Irlanda).

Os anglos (Angeln em alemão; englas em inglês antigo; anglus em latim) eram um povo germânico que se instalou na Ânglia Oriental, na Mércia e na Nortúmbria no século V d.C. A Grã-Bretanha meridional e oriental foi posteriomente chamada de Engla-lond (“terra dos anglos”, em inglês antigo), de onde England, o termo em inglês para Inglaterra.


Na mitologia irlandesa, Ériu, filha de Ernmas, era a deusa epônima, padroeira da Irlanda. Seu marido era Mac Gréine (Filho do Sol). O nome em inglês para Irlanda vem de Ériu e da palavra land (“terra” em germânico, nórdico antigo ou anglo-saxão).

TERRA DE GENTE FAMOSA

Difícil não lembrar desse país onde foi encenado o meu filme preferido de adolescência: Excalibur. Berço de pessoas como os escritores Oscar Wilde, George Bernard Shaw e Bram Stoker, dos atores Pierce Brosnan, Liam Neeson, Peter O'Toole, Gabriel Byrne e Colin Farrell. Como os irlandeses interessam-se muito pela música, tanto a tradicional, como também a contemporânea, destacam-se interpretações de Sinéad O'Connor, Shane MacGowan, da banda U2, The Cranberries, The Corrs e James Galway, um flautista clássico.

Excalibur é um filme de 1981, dirigido por John Boorman. Trata-se da lenda do rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, escrita por Sir Thomas Malory, mais especificamente sobre a espada do rei, a Excalibur.

CERVEJA FORTE, CAFÉ NEM TANTO!

Feliz de estar com os pés firmes no chão da terceira maior ilha da Europa situada no oceano Atlântico, pensei em tomar um café. Ugh! Que decepção, na terra da encorpada cerveja Guinness, o café era muito fraco!

A Guinness é uma cerveja irlandesa cuja história teve início em 1759, quando Arthur Guinness alugou uma fábrica em Dublin, na Irlanda, e começou a produzir sua cerveja. Em 1862, adotou a Harpa irlandesa como símbolo. Com quase 300 anos de história, a cerveja Guinness é produzida com a mesma composição: malte irlandês, água de Dublin, lúpulo e levedura.

COM O DESTINO TRAÇADO

Vou para a cidade de Galway, e, de cara, uma boa notícia: a passagem baixou de 20 para apenas 5 euros, só porque a comprei dentro do aeroporto (não entendi! Mas, se é assim, porque contestar, não é?). Acomodado no ônibus, estranhei não haver ticket de comprovante da bagagem que segue lá embaixo, no bagageiro. À frente, 5 horas de viagem entre os vilarejos da Irlanda – cena rural, vegetação rasteira, muitas ovelhas e casas típicas. Dentro do ônibus: um monitor de tv desligado e sem banheiro. “Talvez haja paradas no trajeto”, pensei. Que nada!

Galway, também denominada de Gaillimh em irlandês, é uma das maiores cidades da Irlanda, localiza-se na costa oeste do condado do mesmo nome. Sua população é de pouco mais de 70 mil habitantes, cuja história tem registros de cerca de 800 anos, tendo sido a única cidade medieval na província de Connacht.

APRENDENDO COM UM MESTRE

Galway – razão da minha viagem. Fui convidado para aprofundar minhas técnicas na arte marcial chinesa que mais admiro, o Tai Chi Chuan. Arte chinesa? Na Irlanda? Pois é! Parece um pouco fora de contexto, mas é simples de entender. Meu professor irlandês, Niall O‘Floinn, e nosso mestre chinês, Wang Hai Jun, vivem na Europa. Assim, nos reunimos para treinar Tai Chi Chuan em Galway e também numa cidade vizinha, Limerick. Nosso treinamento consistiu em 2 horas de manhã, 2 horas à tarde e mais 3 a 4 horas e meia de treino à noite – isso de segunda à sexta. Já aos sábados e domingos, somente 2 horas pela manhã e 2 horas à tarde. Mamão com açúcar.

Tai Chi Chuan é uma arte tradicional marcial interna chinesa, com movimentos suaves e contínuos que produzem resultados terapêuticos ao praticante.

NAS HORAS VAGAS

Logo que cheguei, por coincidência ou sorte, um evento grande movimentava a cidade: era a “Volvo Ocean Race”, que atraiu mais de meio milhão de pessoas de todo o país para Galway. Todas as noites havia apresentações de dança típica irlandesa, shows e muita festa. O povo irlandês é muito amistoso e considerado um dos mais alegres da Europa. A Irlanda, uma ilha com aproximadamente 5,8 milhões de habitantes (incluindo a Irlanda do Norte), tem fortes raízes celtas7 e impressiona também por sua vida social e boêmia.

Os celtas organizavam-se em tribos desde a península Ibérica até a Anatólia. Boa parte da p opulação da Europa ocidental pertencia às suas etnias até a eventual conquista de seus territórios pelo Império Romano. Perpetuaram-se até pelo menos o século XVII na Irlanda, pela característica geográfica de seu isolamento, conseguindo, assim, preservar melhor suas tradições. Os celtas exaltavam as forças telúricas em rituais populares, em que a expressão máxima era a Deusa Mãe, cuja manifestação era a própria natureza.

CASTELOS E IGREJAS – CENÁRIOS DE HISTÓRIAS E LENDAS

Quando viajamos pelo mundo, ficamos deslumbrados diante dos castelos e igrejas que cruzam nossas vistas. Imaginamos como deve ter sido na época de suas construções e a vida dos que habitavam naqueles locais. Quando apareceu um intervalo em meu treinamento, aproveitei para visitar a Catedral de Galway, muito bonita em seu interior. Também visitei, nas redondezas, o castelo de Kylemore. Conclui que andar pelo mundo e conhecer os castelos e igrejas antigas é como fazer parte das histórias e segredos guardados pelo tempo.

O castelo de Kylemore é uma das mais românticas construções do final do Século 19. Situase em Connemara, Galway. Originalmente, foi construída por uma família como uma residência particular. Sua construção neogótica, feita de mármore, tornou-se, mais tarde, uma abadia de freiras beneditinas que fugiram da Bélgica na época da 1ª Guerra Mundial.

Dublin, Irlanda. Foto: Levis Litz
NA CAPITAL, DUBLIN

Após um longo período de treinamento, fui para Dublin descansar. Lá encontrei uma amiga argentina, Monina, professora de tango e que me ajudou a conhecer a cidade. Ela me levou no Temple Bar e num pub, o “Ha' Penny Bridge Pub”, onde se pode experimentar o entretenimento típico irlandês com música ao vivo, bebida e ótimo ambiente. Ali, assistimos a uma dupla de “violeiros countries” dos Estados Unidos. Um show memorável para a minha última noite na cidade.

O Temple Bar é um famoso espaço turístico que se destaca pela concentração de inúmeros bares em que a vida boemia se faz presente e onde pessoas de todo o mundo se encontram.

O LEPRECHAUN

Segundo arqueólogos, a Irlanda é povoada há mais de 9000 anos. É uma terra com muita tradição e os irlandeses adoram contar histórias da região. Tentei acompanhar seus contos regados a muitos copos de Guinness, mas não foi o suficiente a ponto de ver um leprechaun.

Leprechaun é uma figura mitológica do folclore irlandês, também conhecido como Duende ou Gnomo. Pequenos, com estatura entre 30 e 50 centímetros, vivem em bosques ou florestas e são considerados guardiões de tesouros escondidos. São descritos como alegres, traquinas e vestidos à maneira antiga, com roupas verdes, uma cartola e sapatos com fivelas.

O CLADDAGH

Numa terra tão fascinante, repleta de simbologia e mistério, o respeito pelo ser humano é evidente. A fraternidade, lealdade e amizade são pontos fortes nessa terra representada pelo “Claddagh”.

O Claddagh é um símbolo cuja origem data de 300 anos. Surgiu numa antiga aldeia de pescadores em Claddagh, aos arredores da cidade de Galway. Seu símbolo é entregue como reconhecimento de amizade sincera e verdadeira.

A FRATERNIDADE EM BUSCA DA PAZ

Velhos e respeitados índios de diferentes tribos da América do Norte designaram cinco lugares no planeta para conduzir rituais pela paz. Um sioux chamado Arvol Looking Horse teve uma visão para ir à Irlanda e visitar o centro espiritual daquele país. Para revitalizar os lugares sagrados, muitos dos quais com círculos de pedras12, cerimônias foram realizadas com uma fogueira por quatro dias. Porções das cinzas remanescentes dessas fogueiras seriam distribuídas com a intenção de aproximar as pessoas em prol da paz. Um irlandês que estava envolvido como um dos membros do grupo que recebeu os índios, na minha despedida, deu-me alguns gramas daquelas cinzas.

Círculos de pedras são antigos monumentos que frequentemente formam um conjunto de pedras dispostas num arco de círculo. O mais conhecido e visitado círculo de pedras britânicos é o de Stonehenge (Inglaterra).

NA OUTRA IRLANDA (DO NORTE), EM BELFAST

De Dublin levei um pouco mais de 2 horas, de ônibus, para chegar a Belfast. Mas por que há duas Irlandas? A Irlanda do Norte, em 1921, surgiu como uma entidade política autônoma que ficou sob o domínio do Reino Unido. Na década de 60, tentou-se reformar o sistema, mas houve excessivos confrontos entre os habitantes locais. O Exército Britânico, para “conter os ânimos de protestos”, assassinou treze civis desarmados. Esse trágico evento ficou conhecido como o Domingo Sangrento (Bloody Sunday). O confronto com o IRA – Exército Republicano Irlandês – e uma campanha de violência levaram a Irlanda do Norte à beira de uma guerra civil. Novos sistemas de governo foram tentados, mas fracassaram até que em 1998 surgiu o “Acordo da Sexta-Feira Santa13”. Em 1999, os protestantes aceitaram o compromisso do IRA de entregar armas. Enfim, cresce o otimismo em relação ao processo de paz.

O Acordo de Sexta-feira-Santa, também conhecido por Acordo de Belfast, foi assinado em 10 de abril de 1998, tendo sido apoiado pela maioria dos partidos políticos norte-irlandeses. Este acordo tem por finalidade acabar com os conflitos entre católicos e protestantes e garante que a Irlanda do Norte permanecerá ligada ao Reino Unido enquanto sua população assim o desejar.

Belfast - Irlanda. Foto: Levis Litz
SITUAÇÃO DE TENSÃO

Quando caminhei pelas ruas do centro de Belfast, percebi o benefício que o “Acordo de Belfast” proporcionou para a revitalização da cidade, mas havia ainda resquícios das discrepâncias políticas e religiosas. Há muitos murais de protestos. Embora fervorosamente advertido para evitar tal área, quis conhecê-la. Soube de 2 chinesas que foram ameaçadas com facas para saírem daquela área onde estrangeiros eram pessoas não gratas! Com todo cuidado, me preparei para ir lá. Trajado como irlandês, não como turista, caminhei em passos largos como quem já soubesse para onde ia, evitava olhar para os lados. Saí do hotel às 11h da manhã, imaginei ser um bom horário, porque haveria mais movimento nas avenidas. Engano meu, a cada passo em que me “embrenhava” na zona de risco, a tensão aumentava, pois havia pouca gente a pé. Em breve teria que entrar nas ruas secundárias, ainda mais vazias e isso chamaria a atenção. Repentinamente, um carro para a poucos metros de mim, saem quatro irlandeses parrudos. Um deles fica bem no meu caminho. Sem me intimidar, mas pronto para correr uma maratona se necessário, olhei sério para o sujeito e fiz um aceno com a cabeça, ele me fitou, deu um passo para trás e me deixou passar. Continuei, sem olhar para trás, até que entrei na área dos murais. Sem quase ninguém nas ruas, era difícil ser discreto. Notei cortinas se movendo enquanto passava. Parecia coisa de filme de terror. Logo avistei um mural e depois outro. E agora, como tirar fotografias incógnito? Titubeei um pouco e, sem opção, comecei a fotografar. Tudo certo, até que, na esquina, dois homens ficaram me observando. Quando um deles se levantou, me antecipei, dei meia volta, caminhei apressadamente até conseguir me distanciar para um local mais movimentado e seguro. Aquele foi o momento mais tenso que passei na terra dos leprechauns.

Os famosos murais políticos, quase dois mil documentados, tornaram-se símbolo da Irlanda do Norte, pois representam as diferenças do passado e do presente na região desde a década de 70.

A PARTIDA

Após aquela experiência desagradável, passei momentos agradáveis no Botanic Gardens, um dos mais belos parques de Belfast. Aproveitei para conhecer alguns pratos típicos e saborear um pouco do licor da Irlanda, o Bailey´s – uma delícia!

O Bailey´s Irish Cream é um dos mais famosos e deliciosos licores do mundo. Produzido desde 1974 na Irlanda, consiste numa mistura de natas com uísque irlandês e teor alcoólico que alcança 17%.

LITERATURA, POESIA E HUMOR DA IRLANDA

A Irlanda não é fraca, não! Os irlandeses têm fascínio pela literatura. Inseridas em sua cultura, encontramos quatro nobéis de Literatura: George Bernard Shaw, Samuel Beckett ,W. B. Yeats e Seamus Heaney. Um irlandês ganhou o Nobel da Física, Ernest Walton, em 1951. A poesia irlandesa representa a mais antiga poesia vernácula na Europa. Os primeiros registros datam do século VI. Os irlandeses também gostam de rir – e muito!

Algumas anedotas curtas mais famosas

Não faça ao outro o que o outro faria a você, o gosto dele pode não ser o mesmo”. George Bernard Shaw, dramaturgo.

Os verdadeiros amigos apunhalam-te pela frente”. Oscar Wilde, escritor.

Formei um novo grupo chamado de Alcoólicos Unânimes. Se não lhe apetecer uma bebida, telefone a um dos membros, que virá persuadi-lo”. Richard Harris, ator.

Curiosidades

-> Pessoas da etnia irlandesa são comuns em muitos países. Mais de 80 milhões de pessoas compõem a emigração irlandesa que atualmente abrange Inglaterra, Argentina, Austrália, Canadá, entre outros. O maior número se encontra nos Estados Unidos, cerca de dez vezes mais irlandeses do que na própria Irlanda. A Irlanda também é famosa pelo Grande Evangelho de Santa Columba (Book of Kells). Um manuscrito ilustrado feito por monges célticos até o ano de 800. Apesar de estar inacabada, é um dos mais belos manuscritos que sobreviveram desde a Idade Média. É considerado como um dos mais importantes vestígios da arte religiosa medieval. Escrito em latim, o Livro de Kells contém quatro Evangelhos do Novo Testamento.

-> A harpa, um dos símbolos da Irlanda, pode ser vista nos passaportes e selos da República da Irlanda. É baseada numa harpa do séc. XIV, que está agora guardada no Trinity College de Dublin e obteve popularidade como a Harpa de Brian Boru.

-> O dia nacional na Irlanda é 17 de março, que homenageia o padroeiro São Patrício.

-> O trevo de três folhas também é identificado como símbolo da Irlanda, porque se diz que São Patrício o utilizou para explicar a Santíssima Trindade. A cor verde também é a cor mais associada à Irlanda e está presente na bandeira nacional, representando os cristãos do país.

Para saber mais sobre a Irlanda: http://www.ireland.com/
-----------------------------------------------------------------------------------
Nota : Este artigo foi escrito originalmente para a Revista Mediação e reflete fielmente os fatos quando publicado, entretanto, alguns de seus dados podem ter sido alterado com o tempo. Certifique-se de obter informações atualizadas por outras fontes antes de tomar este texto como referência.

-----------------------------------------------------------------------------------
Comente este texto aqui ou em: fotoserumos@gmail.com ou levislitz@hotmail.com
-----------------------------------------------------------------------------------
Quer ler mais Histórias de Viagem? Visite: Fotos e Rumos (http://www.fotoserumos.com/)

Comentários

  1. Comentário recebido pelo FaceBook de Letícia Viana (Salvador - BA): "Amei seu diário de bordo sobre a Irlanda! Apaixonante! Sempre me interessei pela história celta e sempre tive vontade de conhecer Irlanda, Escócia, País de Gales e Inglaterra."

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Canon lança no Brasil lente EF 24-105mm f/3.5-5.6 IS STM

Bob Wolfenson, um dos maiores nomes da fotografia de moda, expõe em Curitiba

Lendário grão-mestre de artes marciais virá ao Brasil