História de Viagem - Patagônia: uma aventura sobre duas rodas


Na Patagônia rumo ao sul - Terra do Fogo. Foto: Valesca Giordano Litz

A Patagônia é uma região fascinante, cheia de histórias, tradições e belezas naturais. Viajar por aquelas terras é uma experiência única, principalmente para quem está sobre duas rodas.

E lá estávamos nós, Valesca, professora de História, e eu, sobre uma pequena motocicleta Honda XL-125, seguindo para o Sul da América do Sul. Já tínhamos aprendido em aventuras anteriores que no mundo que cerca uma viagem de motocicleta, vale de tudo. Para superar limites é necessário muita técnica e experiência. A coragem vem com a vontade de conhecer o novo e vivenciar aspectos inusitados.

Ao atravessar uma região desértica como a Patagônia, cada gota de gasolina torna-se preciosa, principalmente quando o pequeno tanque da XL comporta o suficiente para percorrer no máximo 230 quilômetros, e pela frente há trechos superiores a esta quilometragem entre os postos de gasolina.

Mas não foi a gasolina que nos deixou parados em pleno deserto. Na pequena cidade de Sierra Grande, na Argentina, trocamos o óleo na casa de um mecânico de carro, onde curiosamente havia um animal de estimação: filhote de guanaco (parente da lhama peruana).

Ao continuar a viagem, após cem quilômetros de estrada paramos para tomar a última gota de água que tínhamos. O calor do deserto era escaldante. Nenhuma árvore por perto, a única sombra era da motocicleta em contraste com o asfalto. De repente, o motor perdeu a sustentação, começou a falhar e as duas rodas foram lentamente parando de girar. Estávamos no acostamento.

Antes de qualquer pânico, era preciso fazer uma checagem geral rápida, ficou evidente que o problema era na bobina de energia. A princípio eu tinha pensado que era a vela, mas depois de trocar por uma nova, não tive mais dúvidas - era a bobina. Tudo bem, tinha uma de reserva.

O problema seria a troca, teria que abrir parte do motor e isso não era possível sob aquelas circunstâncias. Agora sim, era a hora do pânico. Entretanto, a solução apresentou-se numa única alternativa: caminhar até o posto mais próximo. Não deveria estar muito longe. "Estão sempre próximos às entradas e saídas das cidades", pensei.

Pedimos auxílio aos poucos veículos que passaram por nós, nenhum parou. Caminhamos oito quilômetros e nada de posto. Começava a escurecer. A garganta começou a secar por causa do ar seco do deserto. O pior era ter que empurrar a motocicleta, com toda a bagagem, nas subidas. Até o capacete parecia pesar além do limite suportável. Valesca lembrou que tínhamos uma maçã, a qual devoramos lentamente, aproveitamos todo o suco para umedecer os lábios.

Enfim, após quatro horas de caminhada à beira da estrada e do nosso limite, chegamos ao posto, percorrendo a pé 18 quilômetros. Mais tarde, pensamos que tivemos sorte, se considerarmos que o último ponto habitável tinha ficado para trás a mais de 100 quilômetros e podíamos ter ficado bem no meio do caminho.

O cotidiano do regresso

Depois de ter percorrido cerca de 30 dias em direção ao sul, o ritmo da viagem de retorno para o norte, para casa, nos últimos dias tinha se tornado uma rotina de acordar, acelerar, parar e dormir. Em média viajávamos entre 400 e 500 quilômetros por dia.

Aquele foi o momento mais monótono da viagem, para não dizer cansativo. Não havia muitas alternativas para passar as horas. Não podíamos conversar um com o outro devido ao barulho do motor e do vento. Entretanto, todo dia eu cantava as músicas que sabia para me distrair. Depois fazia planos para quando chegasse em Curitiba. Pensava nas matérias que teria que escrever, nas fotos que iria publicar, nas palestras que daria.

Quando os pensamentos se esgotaram, tentei imaginar o que os monges do Tibete estariam fazendo naquele momento, o que aconteceria com o planeta se começasse a girar de modo inverso e outras coisas que mantinham minha imaginação ocupada. Mas, nunca pensei, nem um segundo sequer, que, naquela época - janeiro de 1999, as contas que estava pagando com cartão de crédito seriam cobradas em dobro no momento que voltasse, em fevereiro, para o Brasil.

Amigos de La Posta del Viajero en Moto

No retorno para casa, pelo ritmo que empregávamos, lembro-me muito bem que na beira da estrada, bem lá no sul do continente, eu abri o mapa e disse para a Valesca "veja só, faltam apenas mil e quinhentos quilômetros para chegarmos em Buenos Aires". Quilômetros rodados, passamos por Azul, uma cidade a cerca de 300 quilômetros ao sul da capital argentina, ao centro da Província.

Com a chegada da noite, resolvemos ficar em um camping de Azul ao longo de um belo rio. Não demorou muito para que um simpático argentino aparecesse para conversar com a gente. Era o Jorge Quatrochi, membro da La Posta del Viajero en Moto, que recebe os viajantes de motocicleta de todo o mundo que, por ventura, decidem procurá-lo.

No seu ambiente de trabalho, ele destinou uma sala, um local onde os viajantes motociclistas deixam suas mensagens pintadas nas paredes. Jorge fez questão de nos mostrar a sala e as matérias que saíram em revistas do mundo inteiro sobre sua maneira de fazer amigos. Valesca e eu éramos os primeiros brasileiros que paravam por ali e que ele sentia-se honrado com isso. Com tantos estrangeiros: alemães, suíços, irlandeses, austríacos, neozelandeses e muitos japoneses, nenhum brasileiro até então tinha passado por ali, segundo Jorge. Satisfeito com a nossa presença, quis até fazer um típico churrasco argentino em nossa homenagem, mas como o nosso tempo não permitia, tivemos que deixar para uma outra vez.

Nossa mensagem está pintada na parede para os próximos viajantes motociclistas que passarem por lá. Jorge é uma pessoa bem humorada, simples e que gosta de tratar bem os viajantes. É apaixonado por motocicleta e adora receber amigos motociclistas do mundo inteiro que, eventualmente, lhe mandam revistas e saudações. O endereço dele para os viajantes motociclistas interessados é: Amigos de La Posta del Viajero en Moto. Calle Mendoza 685, Cidade de Azul, Província de Buenos Aires, Argentina, CEP: 7300.

A viagem de Azul até Buenos Aires não demorou muito, foram apenas 300 quilômetros e foi com imensa alegria que entramos na cidade portenha. Estávamos na reta final para chegar em casa, em Curitiba. Isso só era questão de alguns dias.

Ter partido para uma jornada de quarenta dias sobre duas rodas por terras desconhecidas foi um dos momentos mais felizes de minha vida. Fez com que a adrenalina começasse a fluir e nascesse, mais uma vez, a emoção de ser viajante.
-----------------------------------------------------------------------------------
Nota : Este texto reflete fielmente os fatos quando publicado, entretanto, alguns de seus dados podem ter sido alterado com o tempo. Certifique-se de obter informações atualizadas por outras fontes antes de tomar este texto como referência.

-----------------------------------------------------------------------------------

Comente este texto aqui ou em: fotoserumos@gmail.com ou levislitz@hotmail.com

-----------------------------------------------------------------------------------

Quer ler mais Histórias de Viagem? Visite: Fotos e Rumos ( http://www.fotoserumos.com/)

Comentários

  1. Comentário recebido pelo FaceBook - De: Eliete: "Que aventura fantástica. Estou me preparando para visitar a Patagônia, mas pelo método convencional rsrs.".

    ResponderExcluir
  2. Comentário no FaceBook de Heloisa Rodmann: "Adoreeei o relato!".

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Canon lança no Brasil lente EF 24-105mm f/3.5-5.6 IS STM

Bob Wolfenson, um dos maiores nomes da fotografia de moda, expõe em Curitiba

Lendário grão-mestre de artes marciais virá ao Brasil