sábado, 10 de dezembro de 2011

História de Viagem - Um Cemitério de Navios

"Um dos momentos felizes da vida, parece-me ser o da partida para uma longa jornada por terras desconhecidas. Ao libertar-se com esforço supremo dos grilhões do hábito, do peso insuportável da rotina, do manto das inúmeras preocupações e da escravidão do lar, o homem consegue sentir-se feliz novamente. Seu sangue começa a fluir, então, na velocidade da infância e nasce outra vez a aurora da vida", Richard Burton.


Percorrendo o litoral do Rio Grande do Sul
Foto: Valesca Giordano Litz

Foi exatamente com estas palavras de Richard Burton em minha mente que me lancei em direção as praias semi-desertas do Rio Grande do Sul. Eram seis horas da manhã de uma sexta-feira nublada, mas de temperatura amena. Abri meus olhos e percebi que estava na hora de partir. No rádio, a voz do jornalista Heródoto Barbeiro dando as últimas notícias. Após um café reforçado, peguei a bagagem, dei a partida na motocicleta e arranquei para mais uma emoção junto com a Valesca.

Pretendíamos continuar a viagem que tínhamos feito no ano anterior até a Praia de Torres, RS. Com o pé na estrada, parávamos em média, a cada 150 quilômetros para descansar. E no final da Serra do Espigão descansamos a sombra de uma enorme estátua caracterizada de gaúcho. Sem pressa e sem chuva pelo caminho e com a velocidade de cruzeiro em torno de 80 km/h, sempre respeitando as limitações da moto, chegamos em Caxias do Sul às seis horas da tarde. Foram 12 horas de viagem para 610 quilômetros rodados. Caxias, na Serra Gaúcha, era um ponto estratégico para descanso. Por dois dias choveu bastante, parecia que o El Niño também estava na cidade.


Entre expectativas e desafios

No primeiro dia com sol, partimos para a Praia do Quintão, via Palmares do Sul. Aí começou, de fato, a aventura. Ao respirar o ar misturado com a maresia, pegamos a areia beira-mar e aceleramos rumo ao sul. Nessa rota, de aproximadamente 120 quilômetros, não havia estradas e nem acesso a lugar algum, ou você completa o trajeto, ou volta para o início e, assim, nós estávamos por nossa própria conta e risco.

Ainda nos primeiros dez quilômetros, víamos algumas casas e poucos pescadores solitários. Entretanto, mais adiante, a monotonia era quebrada apenas por revoadas de aves migratórias que faziam um espetáculo à parte. Essa área, entre o Balneário de Quintão e o Farol de Mostardas, é conhecida como "Cemitério de Navios" e logo apareceram os primeiros barcos encalhados e restos de naufrágios que foram pegos pelas violentas tempestades de inverno. Ali são visíveis também diversos mastros enterrados na areia. Essa faixa entre o Atlântico e a Lagoa dos Patos é inóspita e é açoitada freqüentemente pela fúria das forças da natureza. Até restos de veículos abandonados e atolados são avistados pelo caminho.

Com a expectativa de viajar sem indicação, tentávamos não perder de vista os rastros dos pneus de outros veículos. Num trecho onde a areia parecia asfalto, admirado com a sensação de leveza que o ambiente nos dava, a velocidade da moto ia aumentando. De repente, fomos surpreendidos pelo nosso primeiro bolsão de areia. Na superfície, nada diferenciava do resto do trajeto, mas na verdade a areia era quase tão fofa como uma duna. Não deu outra, o pneu dianteiro travou na hora. Valesca veio com bagagem e tudo para cima de mim, e eu, pressionado entre ela e a direção, apoiei a moto no meu joelho esquerdo. Não chegamos a cair, mas esse foi o nosso primeiro acidente e a primeira lição à beira-mar. Felizmente, ninguém se machucou.

O nosso avanço, a partir daí, foi mais lento, cerca de 30 km/h. Nessa imensa praia deserta, repleta de lagoas que se conectam com o mar, entre as dunas, tínhamos que tomar cuidado, também, com barrancos formados por pequenos riachos - os arroios. Atolar num deles poderia significar uma bela dor de cabeça e teríamos como testemunhas dezenas de aves nativas. Num desses arroios, que era muito largo, a água era turva, não podendo-se enxergar propriamente o fundo. Quando dei por mim, parei na beira de uma vala bem funda. Gritei para a Valesca sair da moto, os pneus começaram a atolar. A moto começou a afundar. Com a água pelos joelhos rapidamente desci da moto e num esforço supremo a puxei para trás, o suficiente para desviá-la da margem. Foi adrenalina pura. Essa é a vantagem em viajar numa motocicleta leve, se fosse qualquer outra, não sei não. Com os olhos doendo um pouco, devido à luminosidade refletida na areia, chegamos, segundo nosso mapa, no Farol da Solidão. Até então havíamos percorrido cerca de 55 quilômetros e dois sustos.

O sol foi perdendo sua intensidade, mas acabou atrapalhando ainda mais minha visão à medida que se punha a minha frente. A nossa preocupação era com o anoitecer, queríamos estar em Mostardas antes que escurecesse - viajar à noite à beira-mar não fazia parte de nossos planos, mas, depois de muita tensão, tudo deu certo. O esforço foi recompensado pela experiência, paisagens e um belo jantar numa pousada em Mostardas, onde chegamos, sãos e salvos, quase ao anoitecer.
 
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